Todas as tecnologias produzidas pelos Saberes Tradicionais surgiram a partir das dificuldades práticas da vida, e para construir a viabilidade de inumeráveis formas de viver, nas mais variadas circunstâncias e encontros dos homens com o mundo. Quando uma antiga tecnologia desaparece, junto com ela a humanidade vai perdendo um pedaço de seu caminho percorrido, de sua trajetória, perde-se um trecho da teia emaranhada que a humanidade vai tecendo neste mundo, e com isto, não são apenas os povos que produziram estas tecnologias que perdem autonomia, independência e história, é toda a humanidade que resta diminuída.

Por isto, a PRIMO aposta na sistematização e valorização de Técnicas/Tecnologias/Saberes Tradicionais, trabalhando com quatro projetos integrados:

  • Saberes Tradicionais para produção do cuidado - pesquisando, cultivando e divulgando os saberes sobre plantas medicinais;
  • Agroecologia Tradicional contra o uso de agrotóxicos - desenvolvendo a compostagem e outras formas de reutilização dos resíduos orgânicos na produção de adubos;
  • Soluções Tradicionais em bioarquitetura - divulgando os benefícios e as formas de instalação do banheiro seco ou bason;
  • Saberes Tradicionais para uma soberania alimentar - valorizando os alimentos integrais, naturais e originais.

Vivemos um mundo que caminha na direção de um globalitarismo, como bem definido por Milton Santos, com um adensamento tecnológico cada vez mais sofisticado, cada vez mais ditado pelos pólos centrais, criador de uma dependência cada vez maior dos povos periféricos, gerador de uma homogeneização, padronização mundializada das formas de viver, vestir, comer, habitar, locomover, cuidar, pensar e amar. Neste mundo, preservar o “conhecimento tradicional”, o patrimônio imaterial e a “patrimonialização das diferenças”, é tão necessário quanto preservar a biodiversidade, o patrimônio natural e a herança da diversidade genética.

O conhecimento tradicional vai para além do “saber fazer”, atingindo a amplitude multidimensional do “fazer saber” e do “saber viver”, representando, a sua defesa, uma verdadeira preservação da sociobiodiversidade, e da diversidade subjetiva, componentes das três ecologias, como definido por Félix Guattari.

Pesquisar, conhecer, valorizar e divulgar os saberes tradicionais é trabalhar pela heterogeneidade, pela multiplicidade, pela diversidade, pelo direito à diferença, ou, de forma mais expressiva, pela composição da multitude, como definido por Toni Negri.

janeiro de 2011